Revista Diário - 7ª Edição - Junho 2015
Namesa, está o confronto das antigas potências e suas hipotecas: as cartas principais, para desgraça da Europa, de volta à Rússia. Cai/cai ➹ A s hipotecas da História nãomorrem, fi‐ cam às vezes adormecidas, podemdu‐ rar séculos e renascer quando menos se espera. É o caso da Crimeia, pequeno ter‐ ritório que viveu sempre tempos turbulentos, sofridos, tendo sido habitada por inúmeras etnias que se renovavamatravés dos tempos. Os tártaros, que a haviamocupado depois de venezianos e genoveses, de 1441 a 1783, e formavam o principal núcleo da população, terminaram sendo vítimas da política demo‐ gráfica soviética, quando Stalin, em 1944, os transferiu para o Uzbequistão, na Ásia Cen‐ tral; morreram nessa deportação mais da metade. Com o fim da União Soviética, eles voltaram e hoje são cerca de 12,5% da sua população. Essa política, aliás, antecedia a União Soviética e, nos últimos anos do tsaris‐ mo, levou quase dois milhões de ucranianos para a Ásia Central e a Sibéria. Tanto a Cri‐ meia quanto a Ucrânia também tiveram sua população dizimada pelo confisco de alimen‐ tos nas décadas de 1920 e 1930. Como lembrança, vem a Guerra de 1853, emque a geopolítica pesou na tentativa russa de se expandir à custa do declínio do Império Otomano, aliado à França e à Inglaterra, sob o pretexto de defesa dos direitos de católicos e ortodoxos na Terra Santa. Morreram mais de 500 mil pessoas. A Rússia atacou os estados do Danúbio, comgrandes perdas, e acabou recuando para a Crimeia, refugiando‐se emSebastopol, onde resistiu a um ano de cerco. Depois da queda da cidade, os russos aceitaram a paz. Em1921, a Crimeia se tornouuma república autônoma da Uniãodas Repúblicas Socialistas Soviéticas. Na SegundaGuer‐ ra Mundial, os alemães tiveram dificuldades, mas conquista‐ ram a península em1941. Mais uma vez Sebastopol foi a últi‐ ma a cair. Os alemães foram expulsos em1944. Em 1954, Kruschev transferiu a Crimeia para o domínio da Ucrânia. Com a queda da URSS, a Crimeia passou a fazer parte da Ucrânia. Em1992 se declarou autônoma por umpe‐ ríodo de dias. Em 1995 tornou‐se a República Autônoma da Crimeia. Logo depois aRússia concordou emdividir a frota do Mar Negro, baseada em Sebastopol, com a Ucrânia. A Crimeia é uma região estratégica, que facilita, pelo Mar Negro, a saída da Rússia para o Mar Mediter‐ râneo. Ali, a URSS tinha, e a Rússia tem, bases navais altamente armadas, foguetes intercon‐ tinentais, comcapacidadedeportar ogivas nu‐ cleares, e grande parte de sua poderosa força naval. Kruschev, que era da fronteira da Ucrâ‐ nia com a Rússia, talvez com ânimo de dar mais importância e prestígio à sua província natal, anexou aCrimeia àUcrânia, acreditando que a URSS seria eterna. Com a dissolução do Império Soviético, a Ucrânia, que já tinha fá‐ bricas de foguetes e bases estratégicas, passou a ser mais que fundamental para a defesa da Rússia. Daí a importância da Crimeia para manter sua estrutura militar. Até hoje os rus‐ sos não entendem por que perderam a Cri‐ meia, que criou para eles alguns problemas. Esse fato acontece quando a Primavera árabe, vista comgrandes alegrias peloOciden‐ te, tornou‐se um grande fracasso, com a de‐ sestabilização da região e o reforço para os eternos inimigos xiitas que eles tentaram en‐ fraquecer. O resultado foi o estabelecimento de estados teocráticos, comoo Iraque, omaior erro e fracasso dos Estados Unidos, levado à frente por George Bush pormotivos bempes‐ soais, evidenciados quando ele disse uma vez: “Sadam quis matar papai.” Essa guerra não só foi uma vergo‐ nha militar como gerou uma desestabilização da economia americana, que assumiu gastos gigantescos, e teve repercus‐ são nomundo inteiro, principalmente na Europa. Se não bas‐ tassemesses desastres, como extensão e reflexo, surgiua guer‐ ra na Líbia, cujo fimninguémconseguiu vislumbrar e emnada ajuda oOcidente. ARússia soube aproveitar esses fatos, ePutin deu uma demonstração de capacidade quando conseguiu eli‐ minar as armas químicas sírias e ajudou na solução do inso‐ lúvel enriquecimento de urânio do Irã. É nesse clima que os americanos veem escapar de suas mãos a amarra russa da Crimeia ucraniana para a volta de uma Crimeia russa, coma hegemonia russa sobre oMar Ne‐ gro e abertura para oMediterrâneo. Assim, quempensa que esse fato é de uma simples solução diplomática está fora do mundo. Na mesa, está o confronto das antigas potências e suas hipotecas: as cartas principais, para desgraça da Euro‐ pa, de volta à Rússia. ● Revista DIÁRIO - Junho 2015 - 28 Senador daRepública JoséSarney ARTIGO Esse fato acontece quando a Primavera árabe, vista com grandes alegrias pelo Ocidente, tornou-se um grande fracasso, com a desestabilização da região e o reforço para os eternos inimigos xiitas que eles tentaram enfraquecer. Ex-presidente do República, senador pelo Amapá, Membro da ABL e da Academia de Ciências de Lisboa;escreve no Diário do Amapá, todos os domingos O lado oculto da Crimeia
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