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oi no bairro do samba e do amor, o Laguinho, que Be‐

nedita Guilhermina Ramos, a “Tia Biló”, abriu as por‐

tas de sua casa para exalar o cheiro, as cores e os sons

das caixas deMarabaixo. A festa e a tradição estavamman‐

tidas e com isso a família também cresceu. Vieram as dan‐

çadeiras, tocadores de caixas e os poetas doMarabaixo pa‐

ra colorir ainda mais a vida daquela senhora que recebia a

todos comum sorriso no rosto sempre bemmaquiado, ca‐

belo ornado por flores e água de colônia que inundava o

frescor de vida feliz. Essa era e continua sendo a Tia Biló!

A matriarca sente orgulho de ter sido “mão

de ferro” nos últimos 70 anos, quando di‐

vidiu seu tempo em trabalho, dentro e

fora de casa, criação de filhos, netos,

bisnetos e agregados e o prazer

de carregar o leve peso de man‐

ter acesa a tradição dos feste‐

jos do Marabaixo. Durante as

últimas cinco décadas, foi ela

quem cuidou de cada deta‐

lhe para festejar e agradecer

ao Divino Espírito Santo e à

Santíssima Trindade, heran‐

ça recebida de seus ances‐

trais. Com a bandeira dos an‐

jos do Marabaixo, a matriarca

da família Ramos recebia e rece‐

be até hoje, flores, fogos, cheiros,

senhoras, crianças, sons e ritmos afros, no imenso pátio de

sua casa. É o Ciclo doMarabaixo se perpetuando, e fazendo

feliz a imensa legião de orgulhosos mantenedores da cul‐

tura amapaense. Isso a deixa feliz e a faz recordar do dia

emque ouviu do pai, dias antes de suamorte, a frase: “Não

deixe oMarabaixomorrer”. Hoje ela faz aos netos omesmo

pedido de seu pai.

Filha de Julião Tomás Ramos, o Mestre Julião, Tia Biló

é a referência de mulher guerreira, que luta pelo que

acredita ser o certo e não guarda mágoa nem dissabores

das rasteiras que a vida lhe pregou. Nem

quando foi “convidada”, ainda mocinha,

junto com seus pais e irmãos a deixar

a casa em que moravam na Vila

Santa Ingrácia, localizada em

frente à cidade de Macapá, ho‐

je Praça Barão do Rio Branco,

porque naquele terreno se‐

riam construídas casas para

os governantes e funcioná‐

rios do alto escalão do ter‐

ritório federal do Amapá.

Nem tão pouco criou ódio

no coração quando foi

abandonada pelo marido,

Geraldo Lino da Silva, o qual

vendeu a casa do casal com ela

e os sete filhos dentro.

TiaBiló,

matriarca do

Marabaixo

doLaguinho

Gente

Texto:

Tica Lemos

Foi numa casa simples,mas revestida demuito amor, que amais importante dama

do ritmo negroda cultura amapaense criou seus sete filhos e fez desse pequeno

espaço o ninho acolhedor de várias gerações da famíliaRamos.

Revista

DIÁRIO

- Junho 2015 -

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