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Tia Biló sempre acreditou que o dia de hoje é me‐

lhor que o de ontem, e amanhã será melhor que o

dia de hoje. Devemos agradecer a vida, isso é sem‐

pre mais importante, diz ela até hoje”, lembra a neta

Daniella Ramos, que foi criada pela avó, juntamente

com mais 15 netos, e tem orgulho de dizer que foram

as dores, necessidades, carências, medos e incertezas

que fizeram daquela mulher de riso fácil e mãos firmes

uma grande mãe de família.

Era da cozinha da Tia Biló, onde os panelões fer‐

viam no fogo a lenha, que saíam os sabores que seriam

servidos para a grande família e quem mais chegasse

para saciar a fome, ou simplesmente jogar conversa fo‐

ra. Aquela linda senhora sempre tinha uma palavra sá‐

bia para confortar qualquer coração apertado. Assim a

casa foi ganhando as cores e a amplitude que uma mo‐

rada de gente feliz requer. As flores bem cuidadas no

pátio já desenhavam o tamanho do amor e respeito ao

próximo que ali residia.

E para alimentar as muitas bocas, o tradicional caldo

de carne com muita verdura e tutano saiu do almoço de

família e foi para as madrugadas dar sustância às dança‐

deiras, tocadores e a quemmais estivesse na roda de Ma‐

rabaixo. Mas como toda comida precisa de uma bebida

para acompanhar a longa noite de festa, Tia Biló fazia

questão de preparar muitos litros de gengibirra. A bebida

mistura cachaça, gengibre e açúcar, o que garante energia

a noite toda para quem consome. “Ela sempre foi quem

fiscalizou tudo, desde o espaço para servir os convidados

até se a quantidade era suficiente para manter os mara‐

baixeiros durante toda a noite, com bastante energia”,

conta a neta Daniella, que hoje já não mora com a avó,

mas a visita diária da tarde é sagrada para todos que fo‐

ram acolhidos e recolhidos no coração da matriarca.

Desde 2005, Tia Biló vem enfrentando alguns proble‐

mas de saúde. Há dez anos perdeu a visão por conta de

um glaucoma que se agravou porque ela se negou em fa‐

zer a cirurgia, ainda que a família e médicos amigos te‐

nham insistido. Mas quem ousa mudar uma cisma, uma

desconfiança, um não, de uma senhora de 70 anos?.

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DIÁRIO

- Junho 2015 -

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